A ideia científica do século XIX (que tem origem filosófica em Platão e grande herança do idealismo da Idade Média) era de que, através do progresso da ciência (e do desenvolvimento educacional e racional dos indivíduos – Iluminismo), se teria cada vez mais contato com as “verdades” que circundam o gênero humano. Passou-se a pensar, então, o universo social (e, por extensão, o universo humano) como um objeto cognoscível a partir do qual seria possível deduzir/inferir verdades absolutas e incontestáveis. Essa forma de pensar a realidade marcou a formação das atuais universidades e de muitos de seus componentes –inclusive alunos – que levaram essa ideia corpo social afora, divulgando ainda mais essa forma de enxergar as coisas. Com as pluralidades de opinião, ponto de vista e, principalmente, com os conflitos que se desenrolaram (e alguns ainda se desenrolam) no século XX (e XXI), percebeu-se que a “verdade”, assim, incontestável e única, não existe – pelo menos para questões humanas, como, por exemplo, qual é a melhor política econômica, a cultura mais rica, ou, no caso dos juristas, a melhor forma de se aplicar a legislação vigente. Todas essas questões podem ser respondidas de várias formas, com opiniões completamente diferentes – e igualmente válidas. Assim, se sabe hoje que, em vez de verdades, temos consensos, ou seja, “acordos” sobre o que é a realidade e qual é a melhor forma de encará-la. Esses acordos se constituem de várias maneiras, e, dentre elas, está a argumentativa (racionalmente estabelecida), que visa obter o apoio de outras pessoas a uma determinada forma de ver o mundo e de se comportar perante ele.
Para entender, então, esse jogo de forças, é preciso ser um bom analista da realidade; e para se inserir nele como alguém dotado de capacidade de convencimento, é preciso parar um pouco para estudar argumentação – o que ela é, e como funciona (até para evitar ser “conduzido” por outras opiniões que não a sua de maneira acrítica). A argumentação, segundo Philippe Breton, passa por dois estágios (duplo gatilho argumentativo): o enquadramento da visão e a vinculação da opinião. Sempre que se quer a adesão de outras pessoas ao que se pensa, pode-se utilizar de vários caminhos: a coerção física (que impõe a adesão pela força bruta), a retórica (convencimento pela manipulação, sedução ou propaganda) e a argumentação (convencimento livre e racional de alguém a uma determinada tese devido aos argumentos utilizados), por exemplo. É o que o próprio Breton afirma: Saber “argumentar não é um luxo, mas uma necessidade. Não saber argumentar não seria, aliás, uma das grandes causas recorrentes da desigualdade cultural, que se sobrepõe às tradicionais desigualdades sociais e econômicas, reforçando-as? Não saber tomar a palavra para convencer não seria, no final das contas, uma das grandes causas de exclusão?”. Para Breton, a argumentação parte do pressuposto de que existe uma pluralidade de formas de ver o mundo igualmente válidas (que não passam, portanto, pelo crivo da ciência, que afirma o que é “verdade” e o que é “erro”) que podem ser discutidas de maneira ética (sem a coerção nem as saídas retóricas). Para, dentro do enfoque argumentativo, se convencer alguém do que se pensa, é preciso, portanto, elencar argumentos do ponto de vista racional que trabalhem a favor da tese levantada. Esse é o papel do “orador” (argumentador) diante de seu auditório (os interlocutores).
Dr. Anísio Marinho Neto
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- Natural da cidade de Caicó - Seridó do Rio Nrande do Norte
- Procurador de Justiça e Corregedor-Geral Adjunto do Ministério Público do Rio Grande do Norte.
- Escritor com 08 livros publicados.
- Presidente da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte.
- Professor e Mestre em Direito Público pela Universidade Federal do Ceará.
- Coordenador da Comissão Arquidiocesana para Tutela de Menores e Pessoas Vulneráveis de Natal Rio Grande do Norte