O Açude Velho de Campina Grande nunca foi tão mencionado e tão amplamente registrado em imagens como nos últimos dias. O motivo, contudo, é profundamente lamentável: o apodrecimento de suas águas e a consequente mortalidade de milhares de peixes. Blogueiros, jornalistas, políticos, cidadãos anônimos e frequentadores do local têm se manifestado de forma recorrente, registrando e comentando o episódio. O silêncio que mais chama atenção, porém, é o do prefeito de Campina Grande, gestor eleito para administrar o município.
Esse silêncio, convém destacar, não constitui novidade. Historicamente, o chefe do Poder Executivo municipal tem se mantido distante de crises relevantes que afetam a cidade, sejam elas relacionadas à pauta dos servidores públicos, à escassez de medicamentos ou a problemas estruturais. Campina Grande vive, possivelmente, uma das mais graves crises econômicas, políticas e administrativas de sua história recente, com impactos profundos e cumulativos sobre a população.
A mortalidade dos peixes no Açude Velho não pode ser interpretada apenas como um problema ambiental isolado. A asfixia que levou à morte da ictiofauna simboliza a própria asfixia que Campina Grande vem experimentando: uma asfixia financeira, política e administrativa que compromete o desenvolvimento urbano e a qualidade de vida de seus habitantes.
Ao se estabelecer um paralelo com cidades de porte semelhante, como Feira de Santana, na Bahia, Caruaru, em Pernambuco, e, sobretudo, com a capital paraibana, João Pessoa, torna-se evidente que Campina Grande tem ingressado em um processo contínuo de declínio econômico e administrativo. Enquanto essas cidades avançam em indicadores de desenvolvimento, Campina Grande perde protagonismo regional.
No caso específico de João Pessoa, observa-se uma diferença estrutural relevante: não houve a consolidação de famílias com monopólio prolongado da gestão municipal. Ao contrário, a população da capital paraibana promoveu, ao longo do tempo, um rodízio administrativo, elegendo gestores de diferentes origens políticas e familiares, como Lúcia Braga, Luciano Cartaxo, Luciano Agra, Ricardo Coutinho e Cícero Lucena. Essa alternância no poder impediu a formação de oligarquias e favoreceu a diversidade de modelos de gestão, de concepções administrativas e de projetos políticos, contribuindo de maneira decisiva para o crescimento econômico, urbano e institucional da cidade.
Em contraste, Campina Grande consolidou, ao longo de décadas, a hegemonia de duas ou três famílias, com a clara predominância de uma delas. Somados os mandatos de prefeitos direta ou indiretamente vinculados a esse grupo, o controle político do município se aproxima de meio século. É justamente nesse intervalo histórico que Campina Grande perdeu status econômico e institucional, deixando de exercer o protagonismo que já teve no Nordeste. Um dado emblemático ilustra esse processo: Campina Grande foi a única cidade do interior nordestino a sediar a Federação das Indústrias, enquanto, nos demais estados, as sedes sempre estiveram localizadas nas capitais.
Nesse contexto, a degradação do Açude Velho — marcada pelo mau cheiro, pela decomposição orgânica e pela morte de peixes — ultrapassa a dimensão ambiental. Ela se converte em metáfora do retrocesso político, da má gestão pública, de escolhas administrativas equivocadas e de um modelo de governança que se mostrou incapaz de promover desenvolvimento sustentável e inclusão social. A falência do açude simboliza, assim, a falência de um modelo administrativo que beneficiou grupos restritos, mas empobreceu a cidade em seu conjunto, nos aspectos econômico, político e social.
O exemplo de João Pessoa demonstra que outro caminho é possível. A capital paraibana figura atualmente entre as cidades que mais crescem no Brasil, resultado de gestões sem oligarquias dominantes e sem monopólio prolongado do poder público. A diversidade de modelos políticos e administrativos adotados ao longo do tempo produziu efeitos positivos significativos, refletidos no crescimento urbano, econômico e institucional da cidade.
Campina Grande também pode vivenciar um novo ciclo histórico, fundamentado em gestão eficiente, honestidade administrativa, transparência institucional e participação popular. Para isso, é indispensável que as instituições públicas funcionem de forma plena e que crises como a do Açude Velho sejam compreendidas não apenas como episódios pontuais, mas como sinais estruturais de um modelo que precisa ser superado. Afinal, há anos a população das periferias convive com a ausência do básico: medicamentos, saneamento, pavimentação e dignidade.
Talvez, como afirma o filósofo Mário Sérgio Cortella, de momentos graves nascem momentos grávidos. Que a morte simbólica do Açude Velho represente, portanto, uma possibilidade de renovação — uma oportunidade para um novo tempo, tanto para o açude quanto para o povo de Campina Grande.
Campina Grande, 13 de janeiro de 2026
Por Napoleão Maracajá
Geógrafo; especialista em Ensino de Geografia; mestre em Geografia; doutor em Recursos Naturais.

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